Você está visualizando atualmente CRÔNICAS DO COTIDIANO: Ninguém sabe o que vai acontecer

CRÔNICAS DO COTIDIANO: Ninguém sabe o que vai acontecer

Marco Polo (1254-1324) é descrito como o homem que revelou a China aos Europeus e, por via deles, a todos nós, que nem ocidentais somos, em supostas 159 cópias do manuscrito original, o que assemelha-se a 159 reedições, com possíveis acréscimos, distorções e mais invenções que não sabemos quantas. Daí uma pergunta intrigante: e quem nos revelou aos chineses? O pai, o tio e o próprio Marco Polo, que por lá passaram muitos anos, podem ter sido informantes qualificados. No entanto, para dar crédito ao que até hoje não é acreditável, pois há dúvidas até se Marco Polo esteve na China e, se lá esteve, qual China que diz ter conhecido? É melhor aceitar a dúvida sobre tudo isso e ancorar-se no que nos diz o especialista em Orientalismo, Edward W. Said, no clássico “Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente”, editado pela Companhia das Letras em 2007, p. 51: “o Orientalismo é postulado sobre a exterioridade, isto é, sobre o fato de que o orientalista, poeta ou erudito, faz o Oriente falar, descreve o Oriente, esclarece os seus mistérios por e para o Ocidente. Ele nunca está preocupado com o Oriente exceto como causa primeira do que diz”. Por tudo que o Ocidente inventou sobre o Oriente é que está com as barbas de molho, acovardado e sem saber o que fazer com o “cavalo de pau” que o último “Imperador (Fake) Romano do Ocidente” se propõe a fazer com o chamado “Tarifaço”, que visa desestruturar o mercado, tal como está constituído. O que virá da China? O que mais virá do Japão, além de colocar os títulos do Tesouro Americano sob suas mão à venda, fazendo reduzir o valor do dólar? O que virá do Irã? Da Coreia do Sul, estimado aliado? Sabe-se, hoje, que orientais, especialmente os chineses, antes que os ocidentais assim se “achassem”, já nos conheciam, chegaram até a engabelar o Vaticano no século XVI com cópias de imagens de santos feitas por eles, mais perfeitas e graciosas que as fabricadas por europeus, e sem pagar royalties ao Papa. Já os financistas do mundo ocidental, em caso de dúvida, se for preciso, transferirão a responsabilidade, como foi sempre em momentos de crise do capital, para os Estados e para as sociedades. A estes cabe administrar a crise e cuidar dos desvalidos e ainda sofrer as pressões dos que consideram os dispêndios como gastos inúteis. Na história isso tem nome: a Decadência dos Impérios, quando aparecem salvadores e milenaristas.

Sinais de decadência costumam expressar-se nos comportamentos e atos enlouquecidos de “Soberanos”. Erasmo de Roterdã, crítico das crises que marcam o Sec. XVI, abre a sua fala em “Elogio da Loucura” (Edição de 1973 da Livros de bolso Europa-América), dirigindo-se aos mortais como se a própria Loucura fosse: “os mortais têm a respeito de mim opiniões díspares, e não ignoro o mal que se ouve dizer da loucura, mesmo entre os loucos. No entanto, sou eu, e eu só, quem alegra os deuses e os homens. Agora mesmo a prova ressalta com clareza, pois me bastou aparecer diante desta numerosa assembleia para acender em todos os olhares a mais viva boa disposição. De imediato, a vossa face se debruçou na minha direção e o vosso riso amável me aplaudiu alegremente” (p.15). Dada à luz em 1511, a obra de Erasmo dava vida às incredulidades e inquietudes dos tempos de passagem da Idade Média para a Modernidade, com os seus loucos e prepotentes arautos do Absolutismo e do Mercantilismo Ocidental, tal qual o “Louco dos Jardins da Casa Branca” (soberbo e intolerante), que se propõe a fazer um Novo Mundo a todo custo, restaurando o fausto dos EUA. E, se isto não for possível em tempos de Globalização, dirá aos que enganou que lamenta muito a brevidade da vida e do poder (o curto tempo de mandato e da insensatez das leis que não lhe concedem mais de dois) “que não lhes permitiu realizar tão vasta empresa” (p.72). O certo é que um novo confronto está “precificado”, como diz a moda, armados até os dentes com suas bombas, mísseis e “arapongas”, o Capitalismo Privado e o Capitalismo de Estado vão demarcar, um deles, com sua espada como o fez Rômulo ao fundar Roma, os muros de dominância das novas forças!

Texto: Walmir de Albuquerque Barbosa – Jornalista e Escritor

Deixe um comentário