Tivemos, experimentamos ainda, com essa pandemia, as mais assustadoras, profundas e dolorosas experiências que a humanidade poderia ter. Experimentamos dor, perdas, danos, dúvidas, limitações, medos, paranoias, pandemônios no corpo, na mente, nas relações, sejam sociais, econômicas ou políticas, entre tantos outros etcéteras e entretantos comuns a uma guerra, mas esta pareceu pior.
As máscaras foram/são precisas e preciosas ao nos proteger, esconder os sorrisos, o choro, a indignação, o desaforo … e tentaram/tentam unificar os olhares, que deveriam seguir apenas em uma direção: a prevenção e cura de um Mal, desconhecido até mesmo à ciência.
Precisávamos de uma verdadeira união para vencer essa guerra que ceifou a vida de milhares e abalou outros milhões. Precisávamos de atitudes visíveis, únicas ou unificadas, fortes, confiáveis e claras contra um mal ainda terrível. Nada disso, infelizmente, nos foi razoavelmente visível, ou ainda não nos é claro em tamanho e proporções possíveis.
Em todo o resto do mundo o Novo Coronavírus foi letal. Aqui, porém, foi mais, em gênero e número.
Ele também foi imoral. Porque não atingiu apenas o corpo mas também resvalou na alma e despertou comportamentos escusos, ignóbeis e acentuou doenças que vez por outra se manifestavam, mas, nesse momento, foram muito mais contundentes, muito mais perniciosas: a corrupção, a negligência, o descaso, a ignorância, a estupidez, a arrogância e petulância. Sem contar com um ódio incomensurável por todos os cantos deste país. Um ódio que nada resolve, só a todos absorve.
Começou com pessoas negando a existência do vírus, a letalidade dele, tratando como simples gripe e valorizando mais o interesse e o (pré) conceito próprio que a saúde coletiva, o bem comum, ou a simples necessidade de se prevenir ou defender os outros. Partiram para a ignorância, ou seja, a ignorância, como ato de “desconhecimento”, se transformou em manifestação violenta de negação, imposição de “ideias” e ideais de muitos ignorantes.
Ambiente perfeito para o Mal se alastrar assustadoramente pelo país e produzir danos muito mais danosos que a própria doença. É difícil ver, por exemplo, que teve pessoas que agrediram outras só porque pediram para usar máscaras; difícil que muitos simplesmente “ignoraram” o trabalho árduo, incansável e por vezes mal renumerado, de uma legião de profissionais de saúde, voluntários da linha de frente de enfrentamento ao Novo Coronavírus.
A negligência e o descaso, em todos os níveis, também foram outros males despertados, que se aliaram à incompetência no trato da crise. Como não perceber ou não dar a mínima importância a uma iminente falta de oxigênio, ou checar a mais remota possibilidade disso ocorrer?
E por fim (ou seria o começo, a origem de tudo?), nos vimos mais uma vez diante de atos de corrupção, envolvendo a compra de insumos e vacinas, que já poderiam ter sido providenciadas a tempo de salvar muitas vidas; sem contar verbas mal utilizadas ou não-usadas nas ações contra o vírus; assim como outros e outros acontecimentos inconcebíveis para um momento tão delicado como este.
Porém, nada disso e muito mais não é novidade pra ninguém. Jornais, telejornais, portais, blogs e redes sociais jorram sobre nossos olhos e ouvidos notícias, fatos e fakes todos os dias e às vezes, até sem perceber, revelam que no Brasil todos os males são muito maiores do que eles revelam, do que realmente valem.
Mas ainda bem que esse país é enorme e um sem-número de cabeças sãs resistiram e resistem nessa batalha, muitas vezes inglória contra o Mal, seja desconhecido ou não, no entanto, infelizmente, considerado “normal”.
Texto: Evandro Lobo/ Jornalista e Poeta.