No momento, você está visualizando <strong>A necessidade da visão da Glória de Cristo</strong>

A necessidade da visão da Glória de Cristo

Em um tempo marcado pelo desprezo por Deus, um verdadeiro resgate da visão da Majestade divina se torna uma necessidade urgente e vital. Caímos do monte da contemplação. O relato bíblico da Criação, nos mostra o Espírito de Deus, em Seu poder e Perfeição trazendo ordem em meio ao caos e beleza em meio a escuridão.  O senso do belo é inerente ao ser humano. É a percepção, apreensão da realidade da beleza. Deus é quem pôs em nós a eternidade. Salomão escreveu: “Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim” (Eclesiastes 3:11). Mas, como resultado do pecado, a mente humana foi corrompida não podendo “descobrir as obras de Deus” por si mesma. Entretanto, a graça comum ilumina a mente dos homens capacitando-os a contemplar a Deus, Sua Glória na Criação, buscando a percepção e admiração do Belo. E mediante a graça livre de Deus em Cristo, os homens agora podem pelo ministério do Espírito, contemplar a Glória de Cristo (2 Co 3:18).

Porém, nossos olhos não estão mais fixos na Glória de Cristo. Na era do ceticismo, os homens perderam o senso da Beleza e Majestade de Deus. Em tempos pós-modernos, os homens aboliram Deus e o ofício piedoso da contemplação. Como resultado, temos visto a destruição do homem. Onde se abole Deus, o Belo, se abole o homem, criado à Sua imagem e semelhança. Johann von Goethe, escritor alemão, afirmou: “Em que consiste a barbárie se não no desconhecimento da excelência?”. Certamente, onde se abole o senso da Beleza de Deus, se instala a tragédia. Onde se abole a Majestade de Cristo, se instala na vida humana o caos e a desordem.  

Estamos diante de uma crise religiosa, na qual muitos cristãos tomados pela indiferença espiritual têm perdido a visão da Glória de Cristo. São como o povo de Israel no deserto do Sinai que enquanto Moisés estava com Deus no monte fumegante, o povo estava cultuando o bezerro de ouro no pé do monte. “…o teu povo, que fizeste sair do Egito, se corrompeu e depressa se desviou do caminho que lhe havia eu ordenado; fez para si um bezerro fundido, e o adorou, e lhe sacrificou, e diz: São estes, ó Israel, os teus deuses, que te tiraram da terra do Egito” (Êxodo 32:7,8).

Há muitos ministros cristãos que à semelhança de Arão (Ex 32:1-6), tem cedido à pressa nervosa de um povo eivado de orgulho espiritual, à idolatria. Um povo ávido pela conveniência pessoal e inclinado ao imediatismo frenético. É indiscutível o fato de que o maior problema do homem sempre foi – e ainda é – a idolatria. Em toda a Escritura a idolatria foi fortemente censurada e profundamente tratada por Deus. João Calvino acertadamente escreveu: “O coração humano é uma fábrica de ídolos”, e “Cada um de nós é, desde o ventre materno, expert em inventar ídolos”. Indubitavelmente o homem adora algo, ele serve a algum objeto de sua contemplação. A questão é: que deus ou senhor ele adora? O homem é servo de quem ou de quê? É lamentável que a nossa geração por perder o senso da Majestade de Cristo, seja uma fábrica de construir ídolos políticos e culturais. Nossa geração tem criado deuses heróis como sua esperança. O doutor e pastor Timothy Keller acertadamente escreveu: “Qualquer ‘esperança’ cultural dominante que não seja o próprio Deus é um falso deus. Os ídolos, então, não tomam apenas formas individuais, mas podem ser corporativos e sistêmicos.”

Tudo aquilo que possa tomar o lugar de Deus em nossos corações se torna um deus, um ídolo, ou, tudo que amamos mais que Deus é idolatria. Timothy Keller, ainda escreveu: “Nossos amores mostram aquilo em que de fato cremos, não aquilo em que dizemos crer. As pessoas, portanto, mudam não quando mudam simplesmente o seu pensamento, mas quando mudam o seu objeto de seu maior amor.” Os homens são “mais amigos dos prazeres que amigos de Deus” afirmou o apóstolo Paulo (2 Tm 3:5). Portanto, em tempos marcados pela corrupção do gênero humano e abandono de Deus, o resgate da contemplação da glória de Cristo nos mostra ser uma necessidade urgente.

Para Aristóteles a felicidade está na contemplação da mente. Para Agostinho, Crisóstomo e Cipriano a contemplação é o remédio da piedade. Jeronimo a chamou de paraíso. Basílio a chamou de tesouro onde todas as graças estão contidas e Teofilacto, o próprio portão pelo qual entramos na glória.  A. W. Tozer afirmou: “Aquilo que nos fascina é aquilo que irá nos guiar. Então eu oro, imploro para que a única coisa que me fascine seja a maravilhosa glória de Deus.” Quão excelente é o trabalho da contemplação!

Entretanto, há muitos cristãos que tomados pelo mundanismo já não possuem a percepção correta da Graça de Deus em Cristo Jesus. Como resultado, transformam a graça de Deus em libertinagem. O amor de Deus em Cristo deve também ser o conteúdo da contemplação. Muitos cristãos perderam a visão do imensurável amor de Deus em Cristo. Não são mais constrangidos pelo amor de Cristo, e consequentemente, possuem uma vida mundana, uma ortodoxia morta, uma vida cristã fria, uma espiritualidade superficial. À semelhança da igreja de Éfeso perderam o primeiro amor. Não possuem mais a alegria e o prazer de servir a Cristo e a igreja.  Quando contemplamos o amor de Cristo desprezamos os prazeres passageiros do mundo. E como afirmou Thomas Watson: “A séria meditação sobre o amor de Cristo nos fará amá-lo novamente.”  

Outro problema ainda, é que há muitos crentes que eivados pelo materialismo, fruto do secularismo, perderam o senso do Eterno, do Transcendente, do Altíssimo. Suas vidas estão amarradas à transitoriedade da vida. Temos visto a perda da visão do Céu. Agostinho afirmou: “Senhor, contento-me em sofrer quaisquer dores ou tormentos neste mundo, se um dia puder ver tua face.” Thomas Watson disse: “A meditação sobre a eternidade nos fará desprezar as coisas presentes, que voam e logo passam.” O apóstolo Paulo exorta: “buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus. Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são da terra; porque morrestes, e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus.” (Cl 3.1-3). Há muitos irmãos na fé que já não creem mais que Deus habita no alto e sublime trono, mas que está perto daqueles que são quebrantados de coração. Tomados pelo ceticismo não adoram Aquele que é digno de toda a adoração, que vive e reina para todo o sempre. Não creem mais que Jesus é o mesmo ontem, hoje e eternamente.  Lamentavelmente, vivemos em meio a uma geração que despreza Deus.

Há também uma crise de autoridade. Há muitas pessoas que tomadas pelo ceticismo estão se rebelando contra a autoridade e a santidade de Deus. A maior crise, porém, é a que se agrava no âmbito religioso. Escolas teológicas, pregadores, pastores e igrejas influenciados pelo liberalismo, fruto do racionalismo, estão deixando de lado a autoridade da Palavra de Deus. Precisamos contemplar a Majestade de Cristo, Ele é “aquele que tem a espada afiada de dois gumes” (Ap 2:12). Sua Autoridade está acima de toda autoridade terrena. Precisamos ainda, contemplar novamente a beleza da santidade de Deus. Thomas Watson disse: “A santidade é o manto enfeitado e belo que Deus usa: é a glória da Deidade. Ele é glorificado em santidade (Ex 15:11). É a pérola mais brilhante da coroa celeste.”

Em tempos de crises somos inclinados a nos desesperar até da própria vida. João, o apóstolo do amor, sofrendo a perseguição feroz do imperador Domiciano, (aproximadamente no ano 95 d.C.) foi exilado na ilha de Patmos, “por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus” (Ap 1:9). Era o último apóstolo vivo de Cristo, e quando talvez pensasse estar só, sendo já ancião e forçado a trabalhos duros naquela masmorra, ele tem uma visão surpreendente. Ele escreveu dizendo: “Voltei-me para ver quem falava comigo e, voltado, vi sete candeeiros de ouro e, no meio dos candeeiros, um semelhante a filho de homem, com vestes talares e cingido, à altura do peito, com uma cinta de ouro. A sua cabeça e cabelos eram brancos como alva lã, como neve; os olhos, como chama de fogo; os pés, semelhantes ao bronze polido, como que refinado numa fornalha; a voz, como voz de muitas águas. Tinha na mão direita sete estrelas, e da boca saía-lhe uma afiada espada de dois gumes. O seu rosto brilhava como o sol na sua força. Quando o vi, caí a seus pés como morto. Porém ele pôs sobre mim a mão direita, dizendo: Não temas; eu sou o primeiro e o último e aquele que vive; estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da morte e do inferno” (Ap 1:12-18). Ó! Como precisamos urgentemente contemplar a Glória de Cristo.

Caros amigos e irmãos em Cristo, nada está perdido! Para quem contempla a Majestade de Jesus pode crer que nada foge ao Seu domínio. Como afirmou o profeta Daniel: “Seja bendito o nome de Deus, de eternidade a eternidade, porque dele é a sabedoria e o poder; é ele quem muda o tempo e as estações, remove reis e estabelece reis; ele dá sabedoria aos sábios e entendimento aos inteligentes. Ele revela o profundo e o escondido; conhece o que está em trevas, e com ele mora a luz” (Dn 2:20-22).

O rei Davi demonstrava uma vida de contemplação quando escreveu: “Uma coisa peço ao Senhor, e a buscarei: que eu possa morar na Casa do Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a beleza doSenhor e meditar no seu templo” (Sl 27:4). À semelhança dos serafins (anjos que ardem em fogo), precisamos contemplar Aquele que está sentado no trono e proclamar a Sua Glória (Is 6:3). Portanto, precisamos de homens de cultura interior, homens que empreendam a arte da contemplação. Homens que se maravilhem com a Eternidade, com o Belo, com o Transcendente.

Quando os homens possuem a visão de Cristo – Sua Pessoa, vida, morte, ressurreição, ascensão, exaltação, senhorio e governo – eles se colocam na posição de seres humanos e passam a manifestar as virtudes que Deus plantou neles e, que somente na contemplação de Deus é que essas virtudes se manifestam plenamente. Giovanni Reale disse: “Os melhores homens serão aqueles que mais viram e contemplaram a verdade. A vida moral depende estruturalmente da contemplação.” Quando contemplamos a Cristo em toda a Sua Glória, experimentamos maravilhosa e poderosa transformação. Assim escreveu o apóstolo Paulo: “E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito” (2 Co 3:18).

Exposto isso, se quisermos que Deus volte o seu rosto sobre nós e não contra nós precisamos nos voltar para Ele com verdadeiro e profundo arrependimento, pois o juízo começa pela casa de Deus. Se quisermos refletir a Glória de Cristo precisamos contemplá-lo com obediência e fé. Se quisermos viver um verdadeiro avivamento precisamos submeter-nos à autoridade de Deus e acordar para a visão da Sua Santa Majestade. Que Deus nestes dias do fim, possa abrir os olhos espirituais da igreja para que contemple Sua Glória e seja tomada por Ela. Caro leitor, que o nosso coração seja tomado pelo santo temor e amor de Deus.

            “… Quanto mais contemplativa for uma vida ativa, mais ativa ela será.” Tomás de Aquino

Texto: Ediney Reis- Teólogo e Escritor

Deixe um comentário