Breve relato de um aprendiz de escritor, aos 64 anos, nesse Dia do Escritor.
Que enlevo habita
o ser que se rende
ao prazer ou desdita
De exercer a escrita?
Descobri-me escritor tarde.
Embora tenha se sentido atraído pela vontade de escrever desde a adolescência, com aqueles versos ainda incipientes de amores e paixões platônicas, essencialmente.
E cartas inspiradas.
Gostava muito delas.
Aliás, acho elas ainda essenciais para expressar o que a alma tem de melhor, principalmente quando escritas à mão.
Então, depois, quando já na faculdade de Jornalismo pela Universidade do Amazonas, a vontade cresceu e foi tomando conta de meu corpo e mente, densamente.
Por sinal, esse pendor pela escrita foi o que me levou a escolher Jornalismo.
Mas, quando fui trabalhar, ironicamente, ou convenientemente, sei lá, comecei reescrevendo e melhorando os textos dos outros, como copidesque e até hoje editor de textos, só que para telejornais.
As minhas experiências como repórter foram poucas.
Aliás, só pra esclarecer, a função de copydesc não existe mais, até porque os jornais já estão se esvaindo aos poucos e não tem espaço nem pra repórteres quanto mais para profissionais que revisam, corrigem e até reescrevem reportagens quando necessário…
Só lembrando ainda, que editar texto em tv vai muito além da mera revisão ortográfica e gramatical, exige também noção de estilo, coesão, concisão e precisão; sem contar a técnica jornalística para verificar a harmonia do texto com a imagem.
Pois bem.
Paralelo ao meu trabalho de verificar os trabalhos dos outros, revisando e consertando, experimentava Poesia e uma vontade imensa de escrever sobre tudo.
Sempre entendi que escrever para mim era mais que um prazer, mas sim um dever.
E devido a convivência com textos curtos, concisos, precisos e diretos, foquei em poemas breves e curtos, precisos, hoje POEMAS PERFEITOS PARA LEVAR NO PEITO (editora Valer, 2023).
Atualmente, além da poesia, transito por crônicas e artigos nos espaços que me permitem (como este em que vos falo) para exercer e exercitar a escrita.
Não me considero um bom escritor e sim um eterno aprendiz, como diz o escritor professor e cronista Odenildo Sena, autor da Engenharia do Texto, e autor das crônicas de Aprendiz de Escritor: Sobre livros, leitura e escrita, ambos pela editora Valer.
Ou seja, ele mesmo se considera aprendiz, embora tenha ensinado a mim e outras pessoas, a elaborar textos, construir uma história, um conto, um poema, um romance, uma narração, uma descrição, uma dissertação, uma reportagem, enfim, um projeto de escrita com começo-meio-fim, não necessariamente nessa ordem mas com finalidade.
Mas que enlevo realmente habita o ser que se rende ao prazer ou desdita de exercer a escrita ?
Muita gente, até os próprios escritores, já tentaram descobrir esse mistério. Ou, sequer se importaram.
Apenas escreveram sobre tudo, sobre o dom, o dever e prazer de escrever.
A paixão pela elaboração, construção das palavras e a sedução que elas exercem naqueles que sabem adorá-las, conhecê-las, montá-las, desmontá-las e transmiti-las em verso e prosa.
E na quantidade infinda das sensações que elas podem produzir em que escreve e quem vai ler.
Só se lamenta que enquanto existe 50 milhões de autores no Brasil, existe um número significativo de não-leitores. Ou seja, pouco se lê neste país.
Dados de uma pesquisa do Instituto Pró-Livro em 2020 apontaram que 54% dos brasileiros não leram nenhum livro naquele ano e 40% dos brasileiros não tinham livros em casa.
É fato: quem não lê, mal fala, mal ouve, mal vê.
E hoje ainda estamos sujeitos a ser vítimas da sedução das telas dos lap tops, tablets e celulares e, o que é pior: refém das fake news, a praga virtual do momento, principalmente aos escribas que se consideram “influenceres” .
E acreditem: o livro impresso, ainda é o melhor amigo que podemos ter.
Outra coisa: não tem jeito, pra gostar ou saber escrever é preciso gostar de ler.
Isso é fato.
Boas leituras.
Boas escrituras.
Texto: Evandro Lobo – Escritor, Jornalista e Poeta